felipa

eu tenho aquelas milhares coisas pra dizer e não sei por onde começar.

poderia falar sobre o quanto estou preocupada com a festa de amanhã, se todo mundo vai passar do ponto ou não, se ele vai saber se controlar na bebida. isso tem me consumido, me rendeu fluoxetina pela manhã e rivotril pra dormir. é, não tá fácil não. e é amanhã, sabe? hoje eu senti meu coração acelerar e desacelerar inúmeras vezes cada vez que eu penso no que pode acontecer. maldito trauma o do ano passado, eu sozinha naquela festa com cinco trêbados gritando uns com os outros na madrugada, um carro batido. meu coração partido. tenho calafrio só de pensar. mas o passado tem que ficar no passado – de alguma forma, eu tenho medo de como o mundo é cíclico.

mas eu posso escolher olhar para o outro lado. o jeito que ele me olhou hoje, do quanto compreendeu minha irritação sem propósito e me abraçou enquanto eu colocava o macarrão pra cozinhar. ou ainda o cuidado dele ao tirar a louça sem fazer barulho. o modo como ele disse que me ama. você provavelmente sentiria inveja, acredite. é tipo filme, e eu, a típica mocinha tonta que faz trapalhadas e sofre por coisas que não deveria sofrer.

tem ainda a melhor parte. nós dois na sala e eu falando de felipa. do quanto amo esse nome desde criança, do quanto sempre quis uma menina assim, de nome exótico – quero filha pra ser única, não repetida em toda lista de chamada. olha a beleza desse nome, amor: “fe-li-pa”. não precisa de mais nada! ele não concordava. acho que desde que encontrei com ele e demos o primeiro beijo eu bato nessa tecla. ele nunca abriu mão. queria sophia. lorena. “fe-li-pa”. ele apostou comigo. tenho nojo absoluto de frutas, não consigo comer nenhuma (não me condene, guarde o choque pra depois), e minha mãe colocou uma bacia cheia de uvas na sala.

_amor, se você comer 10 dessas uvas, nossa filha terá esse nome.

comi na hora. uma por uma. um copo d’água depois. nem eram tão ruins assim.
aposta feita. testemunhas assistindo , papai e mamãe, se neta tiverem, felipa será. certo, amor? “certo! tô até começando a gostar do nome”. e foi assim que eu consegui. é essa a história que eu vou contar pra ela se (quando) ela vier. teu pai apostou comigo, filha. comi dez uvas e ganhei seu nome. não, eu não tava grávida. não, eu não tinha nem casado ainda. mas eu já queria ter você. e queria que fosse com ele. e naquela hora, quando ele concordou com a maluquice de te dar esse nome lindo, eu entendi que a vida queria tanto quanto eu.

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a fluoxetina é uma boa companheira

hoje eu acabei apelando.

não aguentei ir trabalhar, tive que arranjar desculpas esfarrapadas tanto para um quanto para outro e não me pareceu nada imoral. absolutamente normal. as pessoas fazem isso direto, por razões tão menores. eu fiz porque estava beirando a depressão. acho que eu tive um dia de depressão hoje. venho ensaiando há semanas, talvez até mais de mês, mas hoje eu tive a experiencia mais completa. eu amo tomar banho, mas não tinha vontade. eu gosto muito de trabalhar, mas quando pensava na hipótese era como me imaginar cruzando o atlântico a nado. impossível. e eu não senti vontade de me arrumar. quando olhei para o meu guarda-roupa e me imaginei tendo que vestir alguma delas e olhar pras pessoas e ter que conversar e interagir com elas, eu só pensava em me esconder. e chorar. chorei muito. mais do que todas essas pessoas de mariana que perderam tudo com o acidente da barragem. só que eu não perdi nada.

a psiquiatra e psicóloga me disse que estou em um quadro depressivo, mas não em depressão. que é como se eu estivesse na beira de um abismo, prestes a pular, mas que eu acabei gritando antes, e ela me pegou pela mão. olha, estar em depressão deve ser nadar no esgoto, porque ficar em quadro depressivo é uma verdadeira merda. eu não queria levantar do sofá e saí pra consulta arrastada, minha mãe dirigindo pra moema e eu sem conseguir dizer palavra o caminho todo. coloquei roupa sem combinar. os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar e eu no elevador quase não me importando do que as pessoas estavam achando de mim. será que ela perdeu alguém? será que ela está doente? qual foi a tragédia que a deixou assim? parece até injusto entrar em uma onda tão grande de tristeza por nada. tudo corre bem. sou amada, tenho uma família fantástica, dois bons empregos, um salário ok. consigo pagar minhas contas e apesar do peito pequeno e da testa um pouco maior do que deveria, estou bem longe de ser feia, mas pqp, será que é preciso ter coerência sempre?

eu tenho medo do futuro. tenho medo até de perder minha boa vida. tenho inveja as vezes, sabia? dos outros. de como são amados, de como suas amizades são verdadeiras, de como conseguem se divertir com pouco. eu sou muito mais complexa, cheia de arestas. sei que há quem me inveje no mundo, mas percebi que invejo um bando de pequenas coisas. invejo especialmente quem consegue ser feliz a maior parte do tempo. invejo meu antigo eu. mais que todos, acho que invejo minha antiga eu.

tomei duas gotas de rivotril e começo com a fluoxetina amanhã. sempre fui avessa a todo tipo de medicação e detesto ter que gastar sei lá quanto – que foi o que minha mãe gastou- pra passar por médicos que não são do convênio. mas em quadros depressivos, a gente pode fazer um pouco do que os outros mandam a gente fazer, porque é muito mais cômodo do que ter que tomar as nossas próprias decisões. quer que eu vá? eu vou. quer que eu tome esse remédio? eu tomo. quer que eu tome as duas gotas agora? cadê o copo.

cadê eu?

Deus, eu sei que você existe e sei que Você sabe que eu não sou essa merda ambulante, então me tira dessa por favor. não aguento mais dizer que eu estou cansada. queria aliviar minha mente, pensar em nada. sem eira nem beira, sem choro nem vela. se for pra ser, que seja. me dá logo essa fluoxetina e faz dela uma boa companheira.

desabafo número um

não sei por onde começar. comecei meu primeiro blog há muitos anos e acabei abandonando, mas entendi com o tempo que escrever é uma necessidade incrível para mim, que eu tenho dificuldade para viver sem. escrevo em diários há milênios, mas nas últimas semanas conturbadas minha mão não acompanha meu raciocínio. fico triste, mas a tecnologia acaba me vencendo. senti necessidade de abrir meu próprio canto, mesmo que você aí não me leia – aparentemente meus dedos são mais rápidos e poderei digitar e vomitar sempre (na velocidade) que preciso.

não vou perder tempo dizendo quem eu sou, o que faço, o que pretendo fazer. até porque eu não saberia responder a primeira pergunta, para começo de conversa. acho que esse blog é um pouco para me descobrir. eu estava gastando mais de duzentos reais por mês em terapia e ela nem era doce comigo. escute, eu preciso que você seja doce comigo – especialmente se te pago pra isso. não, eu não estou me iludindo, mas esses profissionais da saúde precisam urgentemente de um workshop de como lidar com os seres humanos. são avessos ao toque, pelamordeDeus. a minha terapeuta não gostava muito de me abraçar quando eu chegava no consultório e eu achava horrível entregar aquelas notas de cem ou cinquenta reais diretamente ao final da conversa. parecia que eu estava pagando para que ela ficasse comigo. e sei que de fato eu estava, mas poxa, é muita cara de pau. faltava sensibilidade (a uma terapeuta! que dia é hoje? em que mundo estamos?!). enfim, todo esse devaneio só pra dizer que o blog me pareceu mais barato. quem sabe você que me descobre consegue ser mais bonzinho comigo do que aquela profissional – que além de tudo se vestia muito mal!

eu acho que o primeiro ponto é esse. eu gosto que as pessoas gostem de mim e não acho que isso tenha acontecido com muita facilidade na minha vida. parece uma besteira, você me achará cansativa, mas essa é a maior verdade. eu nunca fui a mais querida da sala. ainda hoje quando entro em uma e percebo que o número de pessoas que me detesta ou que me acham indiferente é maior do que o número de pessoas que me adora, tenho dor no coração. sou uma carente assumida, eu sei. mas não sou sozinha no mundo. Sabino sabia (ha!) muito bem quando disse “amo as pessoas e as coisas mais do que sou amado”. e eu tive dó de Eduardo Marciano. infelizmente aquela criatura torturada se parece um pouco comigo. deve ser o máximo olhar pra grandes personagens da literatura e se identificar. eu fui logo me identificar com o perturbado do Marciano.

e ainda me identificar em partes, porque me parece absurdo, agora que me recordo que aquele infeliz bebia tanto. justamente porque chegamos ao segundo ponto que me traz até aqui. eu odeio bebida. tenho verdadeiro asco. e você pode achar que isso não é um problema, e ah, que lindo!, mas a grande verdade é que o mundo te acha meio marciana por isso (tá, parei com as analogias). meu namorado, por exemplo, acha perfeitamente normal que as pessoas passem do ponto com certa regularidade. ele adora passar do ponto. ele me disse isso com todas as letras ontem. e afirma, como dois e dois são quatro, e b mais a é bá, que acha isso tudo perfeitamente normal. estamos construindo nossa família do zero, o pai dele era alcoolatra, eu perdi meu tio pra essa desgraça e tudo que eu queria era que ele abrisse bem os olhos e enxergasse que não tem nada de normal em beber tantas latinhas de cerveja sem parar. ou caipirinhas. ou, por Deus, whisky. sei lá se escrevo certo. me orgulho um pouco de ficar longe desse caminho sombrio.

e então que é isso. tenho uma aliança no dedo e alguns preconceitos. detesto bêbado. acho gente bêbada chata, me cansam loucamente. meu namorado tem alguns como amigos e outros tantos na família. e eu juro, gosto desse povo. mas quando eles são eles mesmos, quando não estão dominados pelo álcool. e eu morro de medo que ele queira entrar de vez nessa onda. que ele dê a chave para a cerveja dirigir. tenho medo de perder tudo que eu tenho. sou uma medrosa sem freios e acho que estou aqui pra isso. há quem beba. eu escrevo.