a fluoxetina é uma boa companheira

hoje eu acabei apelando.

não aguentei ir trabalhar, tive que arranjar desculpas esfarrapadas tanto para um quanto para outro e não me pareceu nada imoral. absolutamente normal. as pessoas fazem isso direto, por razões tão menores. eu fiz porque estava beirando a depressão. acho que eu tive um dia de depressão hoje. venho ensaiando há semanas, talvez até mais de mês, mas hoje eu tive a experiencia mais completa. eu amo tomar banho, mas não tinha vontade. eu gosto muito de trabalhar, mas quando pensava na hipótese era como me imaginar cruzando o atlântico a nado. impossível. e eu não senti vontade de me arrumar. quando olhei para o meu guarda-roupa e me imaginei tendo que vestir alguma delas e olhar pras pessoas e ter que conversar e interagir com elas, eu só pensava em me esconder. e chorar. chorei muito. mais do que todas essas pessoas de mariana que perderam tudo com o acidente da barragem. só que eu não perdi nada.

a psiquiatra e psicóloga me disse que estou em um quadro depressivo, mas não em depressão. que é como se eu estivesse na beira de um abismo, prestes a pular, mas que eu acabei gritando antes, e ela me pegou pela mão. olha, estar em depressão deve ser nadar no esgoto, porque ficar em quadro depressivo é uma verdadeira merda. eu não queria levantar do sofá e saí pra consulta arrastada, minha mãe dirigindo pra moema e eu sem conseguir dizer palavra o caminho todo. coloquei roupa sem combinar. os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar e eu no elevador quase não me importando do que as pessoas estavam achando de mim. será que ela perdeu alguém? será que ela está doente? qual foi a tragédia que a deixou assim? parece até injusto entrar em uma onda tão grande de tristeza por nada. tudo corre bem. sou amada, tenho uma família fantástica, dois bons empregos, um salário ok. consigo pagar minhas contas e apesar do peito pequeno e da testa um pouco maior do que deveria, estou bem longe de ser feia, mas pqp, será que é preciso ter coerência sempre?

eu tenho medo do futuro. tenho medo até de perder minha boa vida. tenho inveja as vezes, sabia? dos outros. de como são amados, de como suas amizades são verdadeiras, de como conseguem se divertir com pouco. eu sou muito mais complexa, cheia de arestas. sei que há quem me inveje no mundo, mas percebi que invejo um bando de pequenas coisas. invejo especialmente quem consegue ser feliz a maior parte do tempo. invejo meu antigo eu. mais que todos, acho que invejo minha antiga eu.

tomei duas gotas de rivotril e começo com a fluoxetina amanhã. sempre fui avessa a todo tipo de medicação e detesto ter que gastar sei lá quanto – que foi o que minha mãe gastou- pra passar por médicos que não são do convênio. mas em quadros depressivos, a gente pode fazer um pouco do que os outros mandam a gente fazer, porque é muito mais cômodo do que ter que tomar as nossas próprias decisões. quer que eu vá? eu vou. quer que eu tome esse remédio? eu tomo. quer que eu tome as duas gotas agora? cadê o copo.

cadê eu?

Deus, eu sei que você existe e sei que Você sabe que eu não sou essa merda ambulante, então me tira dessa por favor. não aguento mais dizer que eu estou cansada. queria aliviar minha mente, pensar em nada. sem eira nem beira, sem choro nem vela. se for pra ser, que seja. me dá logo essa fluoxetina e faz dela uma boa companheira.

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